São três da manhã e não consigo dormir.

São três da manhã e tenho uma vontade enorme de te mandar uma mensagem, dizer-te que gostava que estivesses aqui na minha cama e não na tua. Acordei a meio da noite, porque sonhei contigo quando fui dormir precisamente para não pensar em ti. Ironias da vida. Tenho tantas saudades das noites que passámos juntos na minha varanda a ver as estrelas até adormecer, dos dias em que fugimos por umas horas para algum lado para fazer o que não devíamos, das vezes em que ri até chorar com as nossas pequenas parvoíces. Éramos uns miúdos e era tudo tão simples, tão bom.

Isto era o que passava pela minha cabeça todas as malditas noites até há bem pouco tempo. Hoje tu já não me conheces, mas eu conheço-te tão bem. Porque enquanto eu me vi forçada a crescer de repente, tudo o que fizeste foi continuar a ser uma criança. Aprendi tanto, mudei tanto. Já não te ponho naquele pedestal que construí só para ti quando tinha a ilusão de que o merecias. Já vi que há mais e melhor no mundo do que perder-me em e por ti. Já cheguei à conclusão de que estar sozinha não é o mesmo que estar solitária e que a minha felicidade nunca residiu no teu sorriso, tu é que eras tão bom a fazer-me pensar que sim.

Acho que nunca te cheguei a agradecer por teres ido embora. Por isso, obrigada. Eu nem em milhões de anos teria tido a coragem de me importar mais comigo do que contigo se tu não te tivesses importado só contigo de forma tão descarada. Até então tinhas sido mais discreto e eu ainda te fazia o favor de tapar os meus próprios olhos. A culpa não é só tua, deixa lá, o meu amor-próprio andava bem perdido e eu fazia tudo menos procurá-lo. Bati com a cabeça na parede de uma maneira que nunca pensei ser possível, senti uma dor que nunca pensei existir. Deixei de sorrir, porque permiti que o meu sorriso dependesse do teu.

Só segui verdadeiramente em frente quando eu decidi fazê-lo, mesmo com todas as razões que tinha para o fazer bem mais cedo. Não te sei explicar como nem porquê, mas houve um dia em que olhei para trás e percebi que já não precisava de ti. Esse dia é hoje. São três da manhã e a única razão pela qual não consigo dormir é o calor que está no meu quarto. Talvez vá para a varanda onde costumava ir contigo, mas desta vez já não vais lá estar e eu vou sorrir de qualquer maneira. E queres saber outra coisa? Voltei a sentir borboletas na barriga quando pensava que isso era algo que só tu me conseguias fazer sentir. Não é.

– Raquel Simões

 

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