“Olá, desaparecida!”

“Olá, desaparecida!”, disseste-me tu da forma mais natural do mundo quando me reencontraste no metro. Não podias ser tu. Não outra vez. Porque tu para mim não és (nem nunca foste) só tu, mas sim a representação corpórea de um misto de sentimentos, bons e maus, mas sobretudo intensos e descontrolados. Mais importante do que tudo, tu és passado. Ou eras. Sei lá. Passou tanto tempo que ainda sei menos do que sabia antes. Que confusão de palavras. Só tu e eu as percebemos, não é verdade?

Mas ninguém o vai dizer. Entre as tuas piadas com segundas e terceiras intenções e os meus olhares nada inocentes, ninguém vai falar na saudade, ninguém vai falar no desejo, ninguém vai falar nos suspiros que se escondem a todo o custo. Porque passado é passado e é lá que deve ficar. Ou não? Bem, a verdade é que é óbvio que só as recordações das nossas noites de segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo me dão arrepios da ponta dos pés à ponta dos cabelos. E tu também nunca me conseguiste mentir. Ou melhor, os teus olhos nunca me conseguiram mentir.

O problema é só um: nós fomos tão imperfeitamente perfeitos juntos, mas nem todo o infinito deve durar para sempre. Há infinitos que se realmente o forem acabam por nos consumir mais do que nos acrescentar. Tens razão, tenho estado desaparecida, mas só de ti e por mim.

– Raquel Simões

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