A parte de mim que não conseguiste roubar.

Admite, quando me descartaste sentiste-te o maior dos homens, mais divino que Deus. O orgulho era tanto que fizeste questão de frisar por todo o lado onde passaste que foste tu que não me quiseste mais e não ao contrário, deixando convenientemente de parte todas as razões pelas quais o nosso amor acabou bem antes da nossa relação. Sempre tiveste esse hábito e não sei como é que pensei que tencionasses fugir à regra por respeito aos anos que partilhámos. Estupidez a minha achar que tinhas uma ponta de decência em ti. Tudo o que tinhas de ter feito era fechar a boca. Porque homem que é homem não fala sobre as mulheres com quem está, sejam elas duzentas ou só uma, dure uma noite ou uma vida. Mas realmente a culpa é minha por esperar demais de ti; um homem que não respeita a própria mãe não consegue respeitar ninguém.

Naquele dia deixaste-me completamente sozinha e só te lembraste de me perguntar se estava bem dias depois quando eu estava mais do que dormente no meio do bairro alto às três da manhã com uma amiga e uns desconhecidos quaisquer. Mesmo com um ou outro espaço por preencher, lembro-me perfeitamente dessa noite. Tanto chorava como ria. Que figura de otária a minha. Por essa altura eu ainda lamentava a tua ausência como se fosse uma perda e precisava de uma mensagem tua como um drogado precisa de droga, mas as coisas mudaram tanto desde então. Mudaram porque eu mudei. Porque eu decidi mudar. Ou melhor, decidi redescobrir-me ao descobrir a parte de mim que não conseguiste roubar. E sabes que mais? Gostei bastante dela!

Descobri que adoro escrever e que nunca o fiz publicamente porque estar ao teu lado não me dava a coragem que estar apaixonado deve dar. Descobri que consigo chegar exactamente onde quero chegar e que estava a abandonar os meus sonhos para tu poderes realizar os teus. Descobri que tenho um sorriso capaz de fazer sorrir qualquer um que tenha a mínima vontade de o fazer e que eras tu que tinhas tanta podridão no interior que nunca na vida te iria conseguir entusiasmar com pequenos gestos ou grandes surpresas. Descobri que nunca deixei de ter uma paixão gigante por ver o mundo, só estava tão insegura de nós (tu eras o santo e eu era a maluca, lembras-te?) que me era impossível dar um único passo sem a sensação aterradora de que te ias embora mal eu virasse as costas. No fundo, descobri que tenho valor. É difícil de acreditar, eu sei. Eu própria também me debati com a ideia de que eu pudesse ter valor depois de me teres dito tantas vezes que não tinha. Mas, para mal dos teus pecados, é verdade. Eu tenho valor. Realmente quem era uma merda eras tu.

– Raquel Simões

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