Até um dia, avó.

Avó, nunca te escrevi uma única carta até hoje, muito menos uma tão pública quanto esta. Simplesmente não me enquadro naquele género de pessoa que corre para as redes sociais e partilha um texto lindo e hipócrita sobre o quanto te amo para depois te ver de ano a ano ou só quando preciso do teu carro ou outra coisa qualquer, até porque tu nem sabes o que é o facebook ou o instagram. Não sou pessoa de estar a toda a hora junto a ti, mas sou pessoa de estar sempre por perto quando precisas que esteja sem esperar uma moedinha em troca. Nunca te pedi favores, nem sequer te confessei que queria que me prometesses que serias a minha avó eternamente. Mas para quê palavras dessas? Para os outros verem? Nunca poderias cumprir a promessa dissesse eu o que dissesse. Chega-me saber que tu sabes, não é preciso fazer grandes teatros.

De ti ficam memórias preciosas e essas sim são eternas. Relembro com carinho as massagens que eu, chata como tudo, te pedia constantemente, as chávenas de café que sabias fazer melhor do que ninguém, as pequenas decorações que ias buscar ao sótão e me davas para eu um dia pôr na minha casa (prometo-te que lá estarão) e principalmente a voz com que cantavas fados que nunca na vida tinha ouvido, essa voz que herdei e que hoje em dia me permite escapar da realidade por uns minutos quando convém. Quando foste embora deixaste saudades a muitas pessoas por muitas razões, estas são as minhas. Prefiro guardar-te em mim como a mulher deslumbrante, atenciosa e senhora do seu nariz que foste quase até ao fim do que como a mulher que não reconheceu a neta na última vez que a viu. Este é o meu último adeus à fantástica mulher que foste.

Quero pela primeira vez pedir-te algo. Quero pedir-te desculpa. Desculpa por não conseguir que estejas no meu casamento e conheças os meus filhos, desculpa por não te ter dado a alegria de ser a primeira do teu sangue a ter uma licenciatura antes de partires, desculpa por ter estado tão centrada em mim que não consegui dizer-te um último adeus na altura que o devia ter feito. Sabes que nunca me consegui calar e quando o pai me disse que tinhas falecido na madrugada do dia do meu aniversário o meu primeiro instinto foi proteger-te de abutres e hienas, e sei que se fosse despedir-me de ti não te ia deixar muito orgulhosa das palavras que iriam com toda a certeza saltar da minha boca. É extraordinária a velocidade com que acharam que as tuas coisas já não tinham dono nem guardião, tomara que tivessem tido a mesma velocidade quando depois foi preciso ajudar o avô. Com ele não tens de te preocupar mais, o pior já passou. Fizeste dele o homem mais feliz do mundo enquanto por cá andaste e deixaste-lhe uma coragem infinita para lidar com a tua ausência. Eu vejo-o de vez em quando e sei que, mesmo deixando deslizar pela face uma lágrima ou outra, ele vive bem sem ti. Ele sabe que não quererias que fosse de outra maneira.

Sempre disse e continuo a dizer que a minha família não é quem partilha comigo laços de sangue. Dentro da minha família só cabe quem ama incondicionalmente e é, acima de tudo, leal. De que é que me serve ter tias, primas, avós e tudo o mais se tenho amigos que estão dispostos a fazer mais e melhor por mim do que a minha própria família? Tu foste das poucas pessoas que sempre foram do meu sangue e da minha família simultaneamente. Olha que não é fácil entrar nesse grupo tão restrito! Mas tu sempre foste uma mulher especial, não é verdade? Até um dia, avó.

– Raquel Simões

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