Perdi o chão, mas não a compostura.

Como é que é possível sofrer tanto por uma única pessoa? Como é que podemos deixar alguém ditar o nosso estado de espírito e as nossas acções? Afinal, é só mais uma pessoa, mais umas conversas, mais uns beijos e uns amassos. Nada de mais nem de novo, a menos que tenhas 12 anos e te estejas a apaixonar pela primeira vez. Até um dia, o dia em que um pequeno detalhe aqui e um pequeno detalhe ali te faz ver o que não vias até então. Nesse dia uma pessoa torna-se na pessoa e tu acabas de te meter num grande sarilho. Parabéns! Comigo a história é complexa e dolorosa, sobretudo porque nunca me senti tão encurralada entre o certo e o errado e porque eu queria tanto escolher o errado (se queria!). Não o fiz, porque iria estar a deixar que fosse ele a decidir, mais uma vez, a pessoa que eu era e o carácter que eu tinha. E eu sei que valho mais do que aquilo que ele quer que eu valha. Muito mais.

Não estás a perceber? Eu explico. Conheci alguém incrível que decidiu que me queria e fez de tudo para me ter. De início não o achei assim tão incrível nem o deixei ter-me, mas eventualmente aconteceu. Era impossível não acontecer. Eu apaixonei-me quando pensei que ele também o fazia. Nunca tinha ouvido falar de alguém que conseguisse fingir amor de forma tão convincente e tive uma grande surpresa. Tudo fez sentido quando o vi a passear de mãos dadas com outra mulher naquele dia: as explicações mal dadas, a fuga dos assuntos menos convenientes, a recusa da partilha de fotografias nossas em redes sociais. Fez-se luz na minha cabeça. Enquanto eu era para ele “uma pessoa”, ele era para mim “a pessoa”, e aquela mulher era “a pessoa” dele. Já há quatro anos, imagina só! Eu não imaginava.

A vontade de chorar e gritar que nem uma louca era imensa. Porquê mentir? Porquê eu? Porquê, porquê, porquê? E será que ela sabia que quando o esperava em casa ele estava comigo ou com outra mulher tão às escuras quanto eu? Passou-me tudo pelos pensamentos, desde o mais racional ao mais disparatado. Mas nada saiu da minha boca. Limitei-me a apagá-lo da minha vida e a perdê-lo de uma só vez, porque recusei ser “a outra”, mesmo quando ele me implorou para o ser e me tentou iludir mais um bocadinho como o cobarde que sempre foi. Sei que há melhor à minha espera e que mereço mais do que dividir a atenção de alguém com mentiras e omissões pelo meio. Não vou negar que quis saber dele depois. O meu amor não desapareceu do dia para a noite como era suposto e bonito nem tão pouco diminuiu a culpa que me consumia pela elevada possibilidade de eu ter ajudado, mesmo sem saber, a arruinar um pedaço da vida de outra mulher que o amava tanto ou mais do que eu. Até que soube que ele tinha arranjado alguém para ficar com o papel que eu não aceitei. Qualquer uma servia no fundo; era só preciso estar disposta a ser “a outra” em todos os seus sentidos.

Foi aí que percebi que nunca nada tinha dependido de mim até ao segundo em que descobri a verdade e agi. A cada dia que passa a dor ameniza, mas, apesar de tudo, tenho saudades que não quero ter e sinto amor que não quero sentir. No entanto, pelo menos tenho a consciência de que me afastei quando percebi que havia alguém a ser destruído em cada momento que eu passava com ele. Perdi o chão, mas não a compostura, e sei que ninguém pode dizer que fui “a outra”. Porque “a outra” sabe que o é, seja no início ou mais tarde, e escolhe conscientemente (ainda que iludida) a miséria de alguém em prol da sua felicidade, nem que seja temporária. Eu escolhi precisamente o contrário: a minha miséria em prol da felicidade, nem que seja temporária, de alguém. Pode ser que a vida me dê depois o que eu tanto procuro, mas não será às custas de ninguém.

– Raquel Simões

Este texto foi baseado numa história real enviada por Ademieli Batista. Queres ver aqui uma história tua também? Envia um e-mail para mrsminnie2015@gmail.com ou preenche o formulário disponível em http://www.mrsminnieblog.wordpress.com/contacto.

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