Ele é o meu ponto fraco.

Estou a ficar um bocadinho farta de que qualquer um ache, e se sinta no direito de dizer, que a dor tem necessariamente uma data de expiração igual para toda a gente. Não tem. Cada dor é uma dor e cada pessoa é uma pessoa. Julgar alguém por demorar meses ou anos a superar o que nós superámos em dias ou semanas é completamente idiota. Ninguém é igual a ninguém e não há nada pior do que apressar a recuperação de um coração partido por causa da opinião de alguém ou desvalorizar a dor que sentimos apenas porque nos dizem que há dores muito maiores do que a nossa.

Por que razão tenho eu de obedecer aos critérios de uma outra pessoa qualquer para ultrapassar uma tristeza que é só minha e que, no fundo, só eu consigo compreender? Isso não faz sentido algum. As pessoas acham que sabem tudo e que, por isso, podem julgar os outros, mas na verdade o que sabem é só o que nós deixamos transparecer, o que é óbvio, o que parece ser e, por vezes, até nem é. Só nós sabemos o peso das dores que carregamos às costas e as razões pelas quais não nos conseguimos ainda libertar delas. Não conseguimos avançar com a vida de cabeça levantada a toda a hora e só por isso somos pessoas fracas? Meus caros, vão passear!

Eu tenho o direito de chorar noites e noites seguidas, apanhar bebedeiras daquelas que deixam uma ressaca péssima e poucas memórias no dia seguinte, envolver-me com homens à procura daquele que perdi mesmo sabendo que esse não volta mais e que não há dois iguais. O que quer que seja que acho que preciso para recuperar, independentemente do tempo que demore e do sentido que tenha ou deixe de ter, é perfeitamente legítimo. Porquê? Porque sou eu que sofro com as consequências dos meus actos, não são aqueles que se acham juízes sem sequer terem uma licenciatura em Direito.

Ah, e depois há aquela questão… Como é que nós podemos chorar pelo fim de um namoro com tanta gente a chorar pelo fim de uma vida? Eu digo-vos como: simplesmente podemos. A dor de outra pessoa não invalida a minha. Não é por alguém perder um filho que eu devo deixar de me sentir mal por perder um simples namorado. Cada um tem direito a sentir a sua dor da forma que bem entender sem o peso das dores dos outros, já bem chega o peso da nossa. Respeita para seres respeitado, sempre ouvi dizer.

Então para quê olhar de lado para alguém que é diferente de nós, que tem um ponto fraco diferente do nosso? Afinal, todos, sem excepção, temos um, até mais. Os nossos pontos fracos podem ser tantas coisas…. Desde pessoas, como o nosso pai, o nosso filho ou o nosso namorado, até situações concretas ou meros sentimentos. Nenhum ponto fraco é melhor ou pior do que o outro, são o que são, e o que para mim pode ser um problema insignificante pode ser para outra pessoa o maior dos pesadelos e vice-versa.

Então digam-me: se ele é e sempre foi o meu maior ponto fraco, o meu tendão de Aquiles, por que razão tenho de ultrapassar a ausência dele de acordo com o tempo de outra pessoa qualquer e da forma que acham adequada? Aquilo que eu suporto a sorrir muitos não suportavam nem a gritar.

– Raquel Simões

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