O porquê do desapego.

Quem nunca se agarrou à ilusão de que no fundo aquela pessoa era boa ou de que iria mudar um dia por milagre? Todos nós fomos ingénuos ou cegos por opção a dada altura e todos nós temos pessoas que passaram nas nossas vidas apenas e só para nos ensinar as lições que a vida obriga a aprender. Alguns aprendem mais facilmente, outros demoram o seu tempo e ainda há aqueles que gostam de bater consecutivamente com a cabeça na parede sem qualquer vontade real de mudar. A todos a vida dá lições, mas cabe a cada um aprendê-las ou não.

Eu aprendi uma das muitas lições (a de que não posso esperar receber dos outros aquilo que dou, especialmente honestidade) relativamente rápido. Com a cabeçada que dei tinha mesmo de aprender, acho eu. Já tinha tido desilusões, mas nunca uma que me tocasse tanto, que me levasse tão ao fundo do poço e que me fizesse mudar radicalmente a minha maneira de ver a vida. A história é previsível: ele apareceu, eu apaixonei-me, ele disse que queria ficar para sempre e eu, passado uns anos, vim a descobrir que a nossa definição de “sempre” é tão diferente quanto norte e sul. Chorei, gritei, pensei que a minha vida nunca mais ia ter piada e que a felicidade simplesmente não era para mim. Passámos de “vamos ver este apartamento para a semana” para “nunca mais nos vamos ver” numa questão de dias. Foi a maior dor que já senti, a de perder alguém que estava literalmente a uma chamada e 15 km de distância, porque está lá, mas não para nós. Por outro lado, ele já não era meu há algum tempo, não de verdade. É que faltou-lhe o que ele na realidade tem em pequena dimensão lá em baixo. Coragem, é isso. Optar por abusos psicológicos durante meses é tão mais fácil do que dizer logo “não te quero mais”. Não ia deixar de doer se ele não fosse um grande cobarde como foi, mas pelo menos não me iria sentir tão estúpida por ter abdicado do meu amor próprio em prol de um amor que afinal não o era. Mais uma lição que aprendi: nunca abdicar de mim, porque quando é para dar certo não é preciso ninguém abdicar de si.

Quando finalmente comecei a pensar “coitado dele” em vez de “coitada de mim” fiquei mais leve, deixei de carregar às costas os “porquê eu?” e os “e se?”. Mas com essa leveza veio outro peso: tornei-me uma pessoa fria. Aprendi a deixar de ser idiota, se quiserem chamar-lhe isso. Passei a ser mais mesquinha na escolha das pessoas que me rodeiam e não tenho problema algum em admitir isso. Comecei a abrir pessoalmente a porta a todos aqueles que davam sinais de querer sair da minha vida e a ter muito cuidado com quem deixava entrar. Às vezes este esquema funciona na perfeição, outras nem por isso e eu acabo a condenar pessoas inocentes pelos erros de uma culpada. Ainda há pessoas que valem a pena, apesar de ninguém ser perfeito. Há que saber perdoar quem merece o nosso tempo e mandar dar uma curva quem não o merece.

Na teoria isto é tão lindo, não é? Contudo, nem que eu queira muito consigo mudar, é tudo tão automático. É assim mesmo quando nos deixam cortes profundos. Deixamos de conseguir distinguir um erro de falta de carácter, perdoar torna-se quase impossível e o desapego vem de forma natural. Não é a versão bonita das coisas, mas é a verdadeira. Se há pessoas que conseguem fechar as feridas e seguir em frente permanecendo as mesmas, parabéns. Eu até hoje não consegui voltar a ser a mesma e eu gostava bastante de quem era. Talvez com o tempo… Afinal é o que toda a gente diz ser milagroso: o tempo.

– Raquel Simões

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s