Sempre o vi de forma diferente.

Sempre o vi de forma diferente. Ele foi alguém único pela bondade indescritível com que usava as palavras e as atitudes, e pela forma quase irritante e irracional como via sempre o melhor nos outros, mesmo que a escuridão nos seus olhos fosse tal que tornava invisível a luz para a maioria dos corações alheios; mas não para o dele. O dele era especial. Era ingénuo, mas sábio, e, acima de tudo, frágil, mas forte. Ele foi aquele que alguma vez me fez ponderar que talvez fosse possível ser genuinamente boa sem que aqueles que padecem de tal bondade se aproveitassem da minha. Ele foi aquela pessoa que no passado achei obviamente menos esperta e mais bem formada do que eu, mas que a sua presença e o seu jeito tornaram claro que era precisamente ao contrário.

Pior que conhecer um lobo assumidamente lobo é conhecer um lobo fingidamente cordeiro. Aquele género de pessoa que mesmo sem abrir a boca nos faz sentir mal por não cedermos a passagem a uma velhota na fila do supermercado quando estamos atrasados para aquele trabalho que custou tanto a conseguir ou por não aceitarmos no nosso grupo de trabalho aquele aluno menos brilhante por ser a última apresentação do ano e a nossa média de ingresso na faculdade depender disso. Aquele género de pessoa que se pensa ser tão correcto que nunca conseguiria encontrar em si forma alguma de guardar qualquer tipo de rancor, ódio ou desprezo. Aquele género de pessoa que nos faz crer na completa impossibilidade de algum dia nos vir a afastar sem uma justificação decente, mas que afinal é bem capaz de o fazer e sem justificação nenhuma, nem boa nem má.

Sempre ouvi dizer que ter homens como amigos era fantástico, pois não havia dramas desnecessários, mentirinhas convenientes, ciúmes sem fundamento… Enfim, era um mar de rosas. Podia estar abraçada a ele num segundo e a dar o meu número de telemóvel a alguém no outro, e não haveria problema absolutamente nenhum. Ninguém se chateava, ninguém exigia explicações. A relação era de pura amizade e preocupação, nada mais. Pensei, então, que com ele seria ainda melhor; já que ter um homem como amigo era bom, ter um homem tão bom como ele como amigo era excelente. Enganei-me, porque de um dia para o outro foi-se tudo: as brincadeiras sem segundas intenções, as confidências reconfortantes, as chamadas de uma hora seguida sem silêncios estranhos, as idas ao cinema e os passeios sem propósito.

Agora dirijo-me directamente à fonte de todos estes pensamentos e devaneios: Imaginei em ti um carácter e uma dedicação à amizade muito maiores do que aquilo que acabaste por demonstrar (ou por não demonstrar, para ser mais verdadeira), certamente muito maiores do que “não tenho tido tempo”. Tudo porque não te quis da maneira como me quiseste ou isso, juntamente com o teu afastamento, também foi imaginação minha? Sempre te vi de forma diferente; estupidamente.

– Raquel Simões

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